«Para mim, o núcleo duro do romance [O Evangelho segundo Jesus Cristo] é quando Jesus, aos catorze anos, vai ao templo de Jerusalém para falar da culpa e da responsabilidade. Não encontra nenhum doutor, mas sim um escriba. Jesus, no livro, herda a culpa de seu pai, que não soube salvar as crianças [no episódio da matança dos inocentes]. Quando pergunta ao escriba como é que é isso da culpa, o escriba diz-lhe: "A culpa é um lobo que devora o pai como devora o filho." Quer dizer, a crença implica que os filhos herdaram a culpa dos seus pais. A partir de um dado momento, já não se sabia qual a culpa concreta. O sentimento de culpa, que não sabemos porquê nem como nasceu, como se incrustou em nós, é muitíssimo pior do que a culpa concreta. Então, Jesus pergunta-lhe: "Tu também foste devorado?" E o escriba responde: "Não só devorado, mas também vomitado." A relação com Deus dá-se em termos de culpa, como no fundo acontece em todo o cristianismo e judaísmo.»
José Saramago
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José Saramago
Prémio Nobel de Literatura, 1998
Autor de mais de 40 títulos, José Saramago nasceu em 1922, na aldeia de Azinhaga.
As noites passadas na biblioteca pública do Palácio Galveias, em Lisboa, foram fundamentais para a sua formação. «E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou.»
Em 1947 publicou o seu primeiro livro que intitulou A Viúva, mas que, por razões editoriais, viria a sair com o título de Terra do Pecado. Seis anos depois, em 1953, terminaria o romance Claraboia, publicado apenas após a sua morte.
No final dos anos 50 tornou-se responsável pela produção na Editorial Estúdios Cor, função que conjugaria com a de tradutor, a partir de 1955, e de crítico literário.
Regressa à escrita em 1966 com Os Poemas Possíveis.
Em 1971 assumiu funções de editorialista no Diário de Lisboa e em abril de 1975 é nomeado diretor-adjunto do Diário de Notícias.
No princípio de 1976 instala-se no Lavre para documentar o seu projeto de escrever sobre os camponeses sem terra. Assim nasceu o romance Levantado do Chão e o modo de narrar que caracteriza a sua ficção novelesca. Até 2010, ano da sua morte, a 18 de junho, em Lanzarote, José Saramago construiu uma obra incontornável na literatura portuguesa e universal, com títulos que vão de Memorial do Convento a Caim, passando por O Ano da Morte de Ricardo Reis, O Evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes ou A Viagem do Elefante, obras traduzidas em todo o mundo.
No ano de 2007 foi criada em Lisboa uma Fundação com o seu nome, que trabalha pela difusão da literatura, pela defesa dos direitos humanos e do meio ambiente, tomando como documento orientador a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Desde 2012 a Fundação José Saramago tem a sua sede na Casa dos Bicos, em Lisboa.
José Saramago recebeu o Prémio Camões em 1995 e o Prémio Nobel de Literatura em 1998.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, condecorou postumamente, a 16 de novembro de 2021, José Saramago com o grande-colar da Ordem de Camões, pelos "serviços únicos prestados à cultura e à língua portuguesas", no arranque das comemorações do centenário do nascimento do escritor.
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