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Calçada Portuguesa - Scriptum in Petris

Ernesto Matos

5 dias

Desconto: 10%
22,32 € 24,80 €

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Sinopse

As pedras dão-nos tudo! O suporte e a proteção, os minerais da nossa existência e os diamantes da nossa elegância, a reflexão da luz matinal e as cores das fachadas das catedrais, a perspetiva do prolongamento das ruas e o tapete a preto e branco bordado ali mesmo à nossa porta… Mas o que podemos nós retribuir às pedras dessa calçada e das catedrais senão o carinho e o prazer de as olharmos, de as sentirmos na nossa envolvência diária?

Desde há milénios que o Homem se vem revelando como ser portador de mensagens iconográficas. A pedra tem sido um dos suportes para a transmissão dessas comunicações ancestrais. Tal como as estrelas, disso provam-nos as figuras rupestres de Foz Côa, as gravuras nos menires da região de Évora e do lado de lá do Atlântico e em terreno norte-americano os inukshuk e as construções de pedras empilhadas como suporte para a interajuda entre povos.

A pedra e as pedras continuam para além da passagem do tempo e irão, com certeza, continuar para além do nosso. Como testemunho literário muitos são os escritores que nos deixaram as suas mensagens onde a pedra continua presente nas suas interpretações. Por exemplo, Antoine de Saint-Exupéry referiu essa importância na sua obra Piloto de Guerra: - «Um monte de pedras deixa de ser um monte de pedras no momento em que um único homem o contempla, nascendo dentro dele a imagem de uma catedral.» Dante Alighieri também escreveria sobre a pedra do chão na sua mais famosa obra literária A Divina Comédia: - «Olha para baixo: ser-te-á bom, para te parecer menos fatigante o caminho, ver o pavimento que os teus pés pisam.» Ainda São Bernardo de Claraval, fundador dos templários, no séc. XII, deixou-nos escrito em forma de lição: «Acredita em mim, aprenderás mais lições nos bosques do que em livros. As árvores e as pedras ensinar-te-ão aquilo que não poderás aprender dos mestres

A arte da pedra, a pedra como arte, arte nos passeios em passeios de arte? Mas afinal onde está essa arte nas nossas ruas que tanto admiramos? A calçada portuguesa como uma das Belas-Artes? Almeida Garrett escreveria no seu livro O Arco de Sant’Ana, numa edição de 1937: «Nenhum povo do mundo se pode gabar de possuir tão rica e vasta colecção de hinos patrióticos: tão belos todos, tão originais, tão excitantes, que dariam inveja ao próprio Tirteu, ao demagogo Alceu, e cujas palavras – não somemos das notas – deviam passar à posterioridade, gravadas nas nádegas das sereias do Passeio público de Lisboa, ou na fachada do teatro Agrião, ou embrechadas – que mais seguro era ainda – pela mais bela das Belas-artes Eusébias, no mosaico do Rocio. Seja onde fôr, mas quero vê-las consubstanciadas, associadas por qualquer modo, a um dos grandes monumentos de arte contemporânea que hão-de imortalizar o século dos nossos Perícles».

Este autor bem português deixa-nos, desde logo, uma visão da sociedade dos meados do séc. XX, em que Lisboa florescia com a abertura das grandes avenidas e o legado de Eusébio Furtado que tinha deixado no Castelo de São Jorge e no Rossio do século anterior o início de um método de pavimentar arruamentos, com a calçada-mosaico ao estilo italiano, e que no futuro criaria a sua própria identidade e popularmente se passaria a designar de calçada portuguesa.

É, sim, graças à pedra, à pedra individual, que a calçada no seu conjunto, dita à portuguesa, assume um rumo definitivo para o continuar de um legado humano da transmissão de mensagens icónicas através dos desenhos que vêm sido aplicados como tatuagens nas nossas ruas ou nos pavimentos que na diáspora vamos edificando como forma de caracterização de um povo.

Este projeto literário aborda o tema da calçada portuguesa através das suas pedras, das suas mensagens gráficas e literárias como formas de arte, como forma de interpretação e diálogo com elas próprias. Cada interveniente convidado teve aqui a oportunidade de se manifestar livremente, dando à pedra algo de si, tal como as pedras nos dão livre e gratuitamente as suas formas, a sua dureza, a sua beleza, o seu mistério, ou o seu corpo para que no dia a dia nos transportem nesta passagem in sic transit gloria mundi.

Foram para este projeto convidados vários artistas plásticos de renome nacional e internacional, bem como algumas escolas do país e gente, muita gente que aceitou o desafio de se "confessar", afinal, numa simples pedra da calçada. Revele-se também numa das páginas deste livro que está guardada para si.

Alea jacta est  - petrae dissolutae sunt.


Ernesto Matos

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Autor

Ernesto Matos

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