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Detalhes do Produto
- Editora: Nanook
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- Ano: 2025
- ISBN: 9789899154865
- Número de páginas: 170
- Capa: Brochada
Sinopse
A 17 de Outubro de 1910, Michelstaedter enviou a sua tese recém-concluída para a Universidade de Florença. A tese, intitulada A Persuasão e a Retórica, viria a ser um dos mais importantes e enigmáticos tratados filosóficos do pensamento italiano do século XX.
«Michelstaedter expõe o desenvolvimento da civilização, que priva o indivíduo da persuasão, isto é, da força para viver plenamente na posse do seu próprio presente e da sua própria pessoa, sem se deixar consumir pela espera de um resultado que está sempre por vir, que nunca é. Os homens vivem apenas o entretanto, esperando que a vida chegue e queimando-a na espera, esperando que – como diz a bela canção veneziana recolhida por Michelstaedter – as pedras se tornem pequenos pães e a água se torne champanhe e, sobretudo, esperando/ que chegue a hora/ de partir a uma hora má/ para não mais esperar.»
Claudio Magris
«Para Michelstaedter, um pêndulo que esteja suspenso de um gancho move-se por um desejo intenso de tocar o ponto mais baixo: que seria aquele em que viria a coincidir consigo mesmo, definitiva e solarmente persuadido da sua própria. verdade. É esta a «sua fome de mais baixo». Mas entregue a si mesmo o pêndulo oscila, balança, agita-se numa interminável circularidade de movimentos, em que cada ponto que ele atinge é um ponto em que falha o ponto mais baixo que pretendia atingir. Deste modo, «sempre o domina uma igual fome do mais baixo e infinita lhe resta para sempre a vontade de descer»). Mas, se alguma vez pudesse atingir esse ponto (o ponto em que, persuadido de uma verdade única deixaria de estar submetido à oscilação do processo de persuasão, isto é, ao movimento incessante da retórica), ele deixaria de ser o que é: um peso – «quando mais nada lhe faltasse – mas fosse finito, perfeito: se se possuísse a si próprio, ele teria deixado de existir». A verdade absoluta como limite inevitável da persuasão é não apenas a morte da linguagem (ou a morte de uma linguagem dominada pela retórica) como a morte da existência humana. Mas a sua vida enquanto vida é também insatisfação absoluta, vazio radical: «la sua vita é questa mancanza della sua vita» (escreve Michelstaedter em palavras que se gravam em nós numa tragicidade fulminante). Donde, o pêndulo está condenado à oscilação (ou, se quiserem, à cultura estética dominada pela oscilação retórica): «O peso é para si próprio impedimento de possuir a sua própria vida e não depende de mais ninguém senão de si mesmo na sua impossibilidade de se satisfazer. O «peso não poderá nunca ser persuadido». O seu destino é abandonar-se ao eterno jogo das aparências e das sombras, colorido pelas manchas vagabundas da pintura impressionista, fragilizado pela derivação psicologista, impulsionado pela orgia dionisíaca de raiz nietzschiana.»
Eduardo Prado Coelho